Acredito que minha geração vive um conflito com a memória e seu papel em nossas vidas, e me coloco aqui como uma representante daquela. Esquecemos-nos muito rápido, vivemos na velocidade da informação, no tempo do consumo, um tempo de instantaneidade contínua. Passamos por constantes transformações do fluxo informacional, e é esse fluxo que determina a forma como nos relacionamos com as coisas, os sentimentos, os pensamentos, o espaço e o tempo. Um tempo infinitamente presente, que subverte nossas relações como passado e com o futuro. Em relação às gerações anteriores, nossa noção temporal mudou (MELLO, 2009). O passado, passa muito rápido, se subdivide em passados velhos e novos, o tempo é usado e consumido. A memória se dilui.
O conceito de memória pode ser compreendido como o armazenamento de informações passadas das quais o presente se serve (LE GOFF, 1996), mas alguns teóricos destrincharam ainda mais essas questões.
Ao comentar as concepções de Henri Bergson sobre a memória, Bosi (1994) esclarece que a memória seria nosso conhecimento subjetivo das coisas, dividindo-se em percepção e lembrança. A primeira apareceria como uma pausa entre as ações do organismo, seria uma relação do presente e da ideia, um ‘vazio’ que se povoa de imagens, e parte da imagem do próprio corpo e de suas relações com o espaço que o cerca, estando localizada na superfície do presente. Já a lembrança exigiria um ‘movimento’, um ‘trabalho’ ou uma ‘ação’, o ato de lembrar que está diretamente ligado ao presente, como se o passado puro e intacto se armazenasse no fundo do lago do presente e fosse resgatado pelo ato de lembrar, invadindo e misturando-se ao presente e à percepção, formando, assim, o complexo da memória.
Sendo assim, o corpo, os objetos e o espaço com o qual esse corpo se relaciona seriam “capturados” pela percepção e resgatados pela lembrança, sendo ambos atos do presente, relacionando-se com o passado, seja capturando informações do presente e armazenando- as como passado, seja partindo do presente em direção ao passado no ato de lembrar. “É do presente que parte o chamado ao qual a lembrança responde.” (BOSI, 2007, p. 48).
A subjetividade, a contemplação e o espírito seriam alegações voltadas à lembrança, enquanto a exterioridade e a matéria filiam-se a percepção. A percepção é também uma relação do indivíduo com o espaço no seu presente. Assim, a memória torna-se uma relação do espaço e do tempo, da imagem e do mundo.
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